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O RARO FUZIL CHUCHÚ: PRODIGIOSA INVENÇÃO NACIONAL OU BIZARRICE?
25/09/2014
No artigo “Memória e Patrimônio: A Questão do Valor Histórico das Armas de Fogo Entregues na Campanha de Desarmamento” (copiar link aqui), cito como exemplo de arma de fogo com “significação histórica” (variável necessária para estimar o valor histórico da peça) o fuzil “Chuchu”, arma utilizada pela Força Pública da Bahia, entre 1891 e 1897. Os exemplares de tal fuzil, muito utilizado no despontar da Guerra de Canudos, são raríssimos, sendo possível apreciar um deles exposto no Museu da Polícia Militar da Bahia.

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Desenho da patente inglesa de Chuchu

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No apêndice de seu fantástico livro “Guerra Total de Canudos” (A Girafa, 2007), o historiador Frederico Pernambucano de Mello descreve minuciosamente as características da referida arma de fogo:

"Arma longa regulamentar na Força Pública da Bahia de 1891 a 1897, quando a milícia vem a receber do Exército o armamento Comblain com que iria a Canudos. Por sinal que o calibre daquela e exatamente o mesmo deste, 11mm, o que não se dá por coincidência. Um senhor, A. Chuchu, da Bahia, obteve na Inglaterra, por intermédio de um certo H. H. Lake, a 12 de agosto de 1884, patente sobre a pistola de percursão anular e quatro canos basculantes que inventara, vindo a fabricá-la - por motivo econômico, certamente - na Bélgica, em Liége, nos calibres de 5 e 11mm, o comprimento da arma ficando em torno dos 145mm (...) de fuste longo e porta-baioneta, com 1.080mm de comprimento, sistema de alimentação e ejeção se dando por alavanca disposta à direita da arma, direcionada, quando em repouso, para a frente desta, prendendo-se a uma garra de aço. Colocada a alavanca em posição vertical, a 90o do ponto de partida, e girada para a direita, com esta gira lateralmente, também em 90o, toda a culatra, expondo a base do cano para a retirada do cartucho disparado e a introdução de novo cartucho. Alavanca novamente erguida e empurrada para a frente, tem-se a culatra bloqueada, pronta para o tiro, e o cão engatilhado."

A Revista Magnum (Ano 10, Número 55, de novembro/dezembro de 1997) trouxe matéria especial, assinada por Aldo Barbieri, sobre o armamento utilizado na Guerra de Canudos. Dentre as armas citadas na reportagem, destaque para o fuzil Chuchú, “muito leve, robusto, de cão exposto”, de “cartucho em lâmina de latão”, com um sistema “inovador, engenhoso e muito simples de abertura de culatra”, utilizado pela polícia da Bahia nas duas primeiras expedições ao arraial de Antônio Conselheiro. O texto cita como projetista da arma o “engenheiro baiano André Chuchú, que detinha várias patentes na Europa, entre as quais a de uma pistola de quatro canos”.

Contudo, em consulta ao Almanak do Estado da Bahia de 1898 foi possível identificar que “A. Chuchú” tratava-se, na verdade, de Athanaze Chuchú, diretor-técnico da Companhia de Esmalte da Bahia, com sede na Rua do Julião 33, em Salvador. Na edição de 1903, Athanaze Chuchú é citado como armeiro, proprietário de uma loja de armas de fogo, cutelaria e ferro esmaltado, na Rua Conselheiro Saraiva, 28, capital baiana.

O Pequeno Jornal da Bahia, de 28 de junho de 1890, reproduz uma nota do Correio do Povo, do Rio de Janeiro, segundo a qual o governo marroquino encomendara a Athanaze Chuchú dez mil carabinas do seu sistema. A mesma nota afirmava que o “sr. Chuchú havia requerido ao Marechal Deodoro que seu invento, premiado na Bélgica (fato noticiado pela Revue de l’Exposition de Paris), fosse considerado nacional e fornecido ao Exército”.

No Relatório anual apresentado em 1893 pelo Governador da Bahia à Assembleia Geral Legislativa, consta a informação de que o efetivo do interior encontrava-se armado com carabinas do sistema Minié, “armamento este estragadíssimo e imprestável”. Por sua vez, o da capital se armara com 900 carabinas do sistema Chuchú, “contratadas com o armeiro Athanaze Chuchú”, das quais já haviam sido entregues 640.

Ao que parece, não há dúvidas sobre a engenhosidade e razoável utilização do invento de Athanaze Chuchú. Contudo, no período em que foi adotado como padrão pela polícia da Bahia, o fuzil não fugiu de polêmicas, sobretudo, quanto à sua eficiência.

Na primeira parte da Ordem do Dia da sessão de 7 de junho de 1894, da Câmara de Deputados do Estado da Bahia, discutiu-se o Projeto n. 113, que fixava a força policial para o exercício daquele ano. A discussão se tornou mais intensa durante o debate sobre a aprovação do texto do artigo 4º, que autorizava o Governo da Bahia a “despender até a quantia de quatrocentos contos (400:000$000) para a aquisição de armamento, arreiamento da cavalhada, quartel e utensílios indispensáveis a todo o serviço, podendo para isso abrir os créditos suplementares necessários”.

Houve caloroso embate entre os deputados Martins Barbosa e Antônio Bahia sobre o assunto. Enquanto o primeiro, relator do projeto, tentava demonstrar a necessidade de melhor organização do corpo de polícia, seu interlocutor proferia severas críticas à abertura de créditos suplementares para a aquisição de novo armamento. O deputado Antonio Bahia destacava a falta de informações sobre o armamento distribuído na capital e no interior do Estado, bem como condenava a compra de novas unidades do fuzil Chuchú para as tropas estaduais:

"A comissão precisa informar se vai mudar de sistema de armamento do corpo de polícia (...) vai completar o armamento comprando o que faltar de carabinas Chuchú? O sr. Salvador Pires (deputado) diz ao ouvido do relator da comissão ‘não caia nesta porque a carabina Chuchú não presta’ (...)"

O parlamentar não se contentou em insinuar uma possível deficiência do armamento utilizado pela força pública baiana. Na continuação do seu aparte, questionava:

"Será o armamento mais convenientemente apropriado para a força pública, que tem de fazer a guarda, a fiscalização da segurança pública na capital ou cidades onde destacada? (...) Crê que era conveniente a ilustre comissão de Força Pública recorrer a um profissional e informar-se da melhor maneira que deve fazer o armamento dessas praças."

Segundo Pernambucano de Mello, a casa Lambin & Théate, de Liége, se encarregou da fabricação do fuzil, “de nome bizarro”, apreciado inclusive pelos conselheiristas, que o tinham como um bom rival do Comblain. Para o historiador, a história dessa arma “ainda por ser mais bem levantada”. Entretanto, recentemente nos deparamos com uma anedota impagável, que vale a pena reproduzir abaixo:

"Um homem chamado Athanazio Chuchú pode ter talento inventivo, pode inventar qualquer coisa, menos uma espingarda. Pois foi exatamente a coisa única que o Sr. Chuchú não podia nem devia inventar, foi essa que ele inventou.

Como Athanazio, ainda poderíamos conceder-lhe que inventasse por aí qualquer coisa: uma pomada para os calos, uma nova forma de guarda-chuva, ou uma nova marca de cigarros; como Chuchú, porém, S.S não tinha o direito a inventar coisa nenhuma que não fosse de coisinha: uma caçarola, uma escumadeira, um espeto para roast-beef... mas uma espingarda! Isso nunca!

Remington, Krupp, Lafouchée são nomes próprios de inventores de armas mortíferas.

Possuem o onomatopeico conveniente. Mas Chuchú! Não podemos crer que uma espingarda Chuchú possa matar dois mil e quatrocentos homens em uma hora, a não ser de riso!

Pouco nos importam as notícias das folhas e a opinião dos competentes que afirmam o contrário. Não, não é possível!

Olhe, não tomaríamos ao sério a sua terrível arma, embora nos estirasse com ela, ‘morto da Silva’. Pois, mesmo depois de morto, continuaríamos a bradar-lhe: ‘Não, Chuchú, não! não é possível!"

O texto acima é da coluna História dos Sete Dias, do jornal carioca “A Semana”, edição de 20 de fevereiro de 1886. Seu autor é José do Egypto (pseudônimo de Antônio Valentim da Costa Magalhães, jornalista e escritor, redator d’A Semana e um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras). Só nos resta imaginar qual teria sido a reação do inventor baiano à anedota do jornalista carioca, contudo, apesar dos evidentes questionamentos à eficiência e à “bizarrice” da arma criada por Chuchú, é inegável sua importância na história de um dos maiores conflitos sociais na História do Brasil.

REFERÊNCIAS:

Annaes da Camara dos Senhores Deputados do Estado Federado da Bahia - 1894 a 1896.

Almanak do Estado da Bahia (1898-1903).

A Semana. Ano II, Vol. 2. 20 de fevereiro de 1886.

Relatorios dos Presidentes dos Estados Brasileiros: Primeira Republica (1890 a 1930). Biblioteca Nacional.

MELLO, Frederico Pernambucano de. Guerra Total de Canudos. São Paulo: A Girafa Editora, 2007.

Pequeno Jornal da Bahia. 28 de junho de 1890.

Revista Magnum. N. 55. Ano 10, novembro/dezembro, 1997.
por Dyego Marinho
Servidor Público Federal. Licenciado em História. Especialista em História do Brasil. Mestre em Cultura e Sociedade.
dyegomarinho@gmail.com
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